Partimos de São Paulo rumo a
Campo Grande, Cuiabá e Cáceres.
Nossa "aventura" começaria no
momento em que cruzássemos a
fronteira boliviana em San
Mathías. E assim foi, entramos
na Bolívia após apresentarmos
nossas carteiras de vacinação
contra febre amarela
No dia seguinte, após visitarmos
o mercado local, seguimos à
Aduana, regularizamos as motos e
partimos ao interior do pantanal
boliviano. A estrada é
belíssima, cheia de surpresas e
encantos como, por exemplo,
tuiuiús (pássaro símbolo do
pantanal), garças e jacarés. Em
determinado momento tivemos que
reduzir a velocidade para a
passagem de quase mil cabeças de
gado.
Naqueles areais intensos e
escaldantes seguimos, agora rumo
à San Ignácio de Velasco e,
depois, Concepción, cidade que
abriga a Igreja da Imaculada
Concepción. Considerada a "Jóia
da Região", esta igreja foi
fundada em 1753, época em que as
missões jesuíticas estiveram por
ali, com o objetivo de
catequizar os índios locais.
Mais 65 Km e estávamos em San
Javier, cidade que tivemos a
sorte de chegar bem na hora
quando as pessoas estavam se
preparando para a festa de San
Pedro. Trata-se de uma cerimônia
religiosa promovida pelos
nativos que se inicia com o
canto evocativo feito pelo homem
mais importante da comunidade e
que chama os participantes para
a oração inicial. Todos ficam de
frente para uma parede,
cantando, para, depois, saírem
dançando no pátio ao som dos
tambores. Depois é a hora da
Chincha, espécie de cachaça
feita de milho, ser distribuída.
Como nós
estávamos fotografando e
filmando toda a cerimônia, fomos
convidados a saborear, com os
índios locais, aquela
especiaria. Tomamos, tomamos e
tomamos... O jeito foi dormirmos
naquela cidade mesmo.
No dia seguinte, mal o dia
amanheceu, continuamos a seguir
em direção à Cordilheira dos
Andes, minha eterna paixão,
depois nossa viagem foi subindo,
subindo e subindo. Apesar da
condição ruim das estradas,
estávamos preparados e com motos
ideais para todo o terreno.
Passamos por Cochabamba e
continuamos a subida. Quando
mais subíamos, mais a
temperatura baixava e, apesar do
dia estar lindo, ensolarado e
limpo, o frio começou a nos
castigar, e muito. Chegamos ao
ponto mais alto da estrada, La
Cumbre (a 4496 metros de
altitude), aonde paramos para
fotografarmos e filmarmos um
pouco. Um garoto de origem
Aimará
se aproximou curioso e começou a
puxar papo com a gente. Pena ele
não falasse o espanhol, mas
somente seu idioma nativo, mas
conseguimos bater um papinho,
porém ele não permitiu que o
fotografássemos. Acontece que os
povos das montanhas acreditam
que, se tiramos sua fotografia,
estaremos levando suas almas
conosco. Naquela noite dormimos
em Caracollo, aliás, no mesmo
lugar que eu havia estado quando
voltava do Alasca em outra
viagem (esta relatada no livro
"Uma Aventura às Três
Américas"). Perguntei se havia
lugar para tomarmos banho e a
garota me respondeu que sim,
porém que não havia água quente.
Como a temperatura baixou até os
10º C negativos, percebi que, em
minhas lembranças, não havia
escutado história de alguém que
tivesse morrido de sujeira, mas
de frio...
Na manhã seguinte, após uma
tremenda ginástica para
descongelar as motos que
amanheceram cobertas de gelo,
pilotamos até La Paz através do
altiplano andino que, a meu ver,
é o máximo que um motociclista
pode conseguir em sensação de
liberdade plena. La Paz é a
capital mais alta do mundo,
estando a 3700 metros sobre o
nível do mar, e está cercada por
picos nevados, cujo principal é
o Ilimani, com 6402 metros de
altitude.
De La Paz fomos a Tiawanaku e
apreciamos as ruínas
pré-hispânicas de um povo que,
segundo a lenda do deus
Viracocha (que é o mesmo deus
Inty do Equador
Na manhã seguinte continuamos
nossa viagem, agora rumo a
Copacabana, às margens do lago
Titicaca, o mais alto lago
navegável do mundo, a 3800
metros de altura. Disseram que
suas águas são salgadas e não
resistimos, fomos até suas
margens geladas para
experimentar as águas, porém não
havia nada de salgado ali. O
local era tão agradável que
decidimos ficar passeando ali
todo aquele dia e, na manhã
seguinte, visitaríamos a Ilha do
Sol. Assim foi.
Vale aqui uma lembrança de duas
aguardentes locais, uma de nome
Singani e outra San Pedro que
devem ser degustadas com
refrigerante de limão. São
simplesmente fantásticas!
Saborosas, leves e deliciosas.
Lembre-se, quando estiver
passando por aquelas paragens,
experimente, vale a pena.
Naquela mesma tarde cruzamos a
fronteira Bolívia-Peru, levando
belas recordações do primeiro
país. Entramos no Peru e
seguimos, ainda no altiplano
andino, até Cuzco, cidade núcleo
do império Inca. Ali visitamos,
durante os quatro dias, o Vale
Sagrado inteiro e tivemos
oportunidade de conhece um pouco
mais sobre aquela cultura
encantadora. Aliás, o povo
peruano merece que tiremos o
chapéu pra eles, devido à
hospitalidade e ao carinho que
demonstram para com nós,
brasileiros.
De Cuzco, partimos para a etapa
mais arriscada de nosso roteiro.
Retornando a Urcos, começamos a
subida da cordilheira através de
uma estrada íngreme, estreita,
cheia de curvas e armadilhas.
Seguindo o conselho de uma
senhora aonde paramos para
abastecer as motos, dormimos aos
pés do monte Ocongate, em um
povoado de nome Tinki. Apesar do
horário, pouco mais de 15:30hs
local, ela nos disse que não
havia tempo para atravessarmos o
pico e que, caso a noite nos
pegasse nas alturas, estaríamos
encrencados de verdade. No dia
seguinte entendemos o que ela
havia dito. De fato
foram mais de duas horas de
pilotagem muito tensa até
Huallahualla, a 5500 metros
sobre o nível do mar e mais
outro tanto para descer. O vento
era forte e cortante, a
temperatura fazia com que nossas
mãos e pés ficassem dormentes a
maior parte do tempo. Isso sem
falar de nossos lábios rachados
e nossos rostos queimados pelo
frio. Não havia nada que
pudéssemos fazer, só rezar. Além
disso, quando entrávamos em uma
curva e olhávamos para o
precipício, que muitas vezes
mostrava-nos uma altura de 800
ou 1000 metros de queda caso
errássemos alguma coisa, nosso
coração chegava a diminuir o
ritmo de suas batidas. Qualquer
vacilo e tchau, adeus, a
cordilheira não daria chances,
como de fato não as dá, para
quem erra.
A descida nos colocou em pleno
coração da floresta amazônica
peruana. Houve trechos que
tivemos que atravessar leitos de
rios onde as águas chegavam
quase na altura de nossas
cinturas. Fora isso, a umidade
fez, por algumas vezes, a
estrada desbarrancar e tínhamos
que esperar que alguma coisa
fosse feita para conseguirmos
atravessar.
Depois, já de volta ao
Brasil, Rio Branco (AC) e Porto
Velho (RO), de onde partimos
para Manaus (AM) de barco. No
barco, enquanto subíamos o rio
Madeira, passamos quatro dias
avistando botos cor-de-rosa,
muitas aves, a imensidão
amazônica e as belezas mais
encantadoras do planeta. Isso em
um clima regado a muita cerveja
e churrasco, sobretudo de peixe,
o dia inteiro. Aquilo era como
um prêmio pelo que já havíamos
passado até aquele momento.
De Manaus partimos para Boa
Vista cruzando a reserva Waimiri
Atroari. Ali (na reserva) é
proibido fotografar, mas demos
um jeitinho de registrar a placa
de boas vindas ao estado de
Roraima. Aliás não poderíamos
perder esta foto não é mesmo?
Depois Santa Elena, na
Venezuela, onde a gasolina é
forte e barata.
No retorno, decidimos continuar
viagem até as 3:00hs da manhã
para aproveitarmos aquela lua
cheia que iluminava a estrada.
Sabíamos dos riscos de animais
silvestres cruzando a rodovia,
então combinamos seguir em
velocidade moderada e com muita
cautela. Acabamos parando a
poucos quilômetros da reserva
indígena, pois não poderíamos
cruzá-la à noite, é proibido.
Ficamos em um ponto de apoio de
ônibus e os motoristas locais
acabaram arranjando um quarto
para nós. Nada de conforto, nada
de cama, só um colchão velho e
sujo no chão, mas com o cansaço,
aquela hora, parecia que
estávamos no melhor hotel
de nossas vidas. Nem me lembro
de termos comentado nada naquela
noite. Tenho a impressão de que
desmaiamos de vez. Uma beleza de
noite bem dormida.
Logo as 6:20hs da manhã
acordamos e partimos rumo a
Manaus, de onde embarcamos as
motos para Belém. Três dias
depois voamos ao encontro das
nossas "meninas" e ficamos na
casa de um outro amigo meu, o
Boni (lembra dos amigos que
encontrei lá no Peru, que cito
no meu livro?), na cidade de
Castanhal.
Ficamos quatro dias lá e
partimos pela Belém-Brasília em
uma madrugada, antes do sol
aparecer no horizonte, para as
incríveis retas daquela estrada.
O que quebrava a monotonia eram
os buracos (muitos) que faziam
com que os caminhões andassem em
zigue-zagues constantes.
Após os 3000 Km, chegamos a São
Paulo sob uma chuva daquelas bem
paulistanas. Na chegada, uma
placa de boas vindas e nossos
familiares todos reunidos a
nossa espera fecharam com chave
de ouro e muita emoção esta
viagem. Agora sim, estávamos em
casa para passarmos o Dia dos
Pais com nossos pais. No meu
caso, no dia seguinte, 11 de
agosto, também passaria o
aniversário de meu irmão
Wilsinho, que, como nossos pais,
estava torcendo e rezando para
que tudo desse certo em nossa
aventura.
No total percorremos cerca de 14
mil quilômetros e, para falar
bem a verdade, valeu a pena a
escolha, tanto de estar de moto
quanto do roteiro cheio de
surpresas belas e emoções
maravilhosas. A vida é assim,
quanto mais a vivemos, mais
descobrimos seus milagres e sua
magia. Viver vale a pena!
Deus nos abençoe a todos.
Valeu!!!
A Vacina contra a Febre
Amarela é conseguida nos
aeroportos brasileiros,
gratuitamente.
Vide livro "Uma Aventura
às Três Américas" p. 223