| |
BR-230 - Rodovia Transamazônica
Parti de São Paulo com um objetivo:
cruzar a Rodovia Transamazônica de
moto! Outras viagens eu fizera,
porém esta tinha um sabor diferente
das demais, o sabor de um sonho que
vinha me acompanhando desde há
muitos anos, mais precisamente
quando estive em Manaus-AM pela
primeira vez e, ao desembarcar do
avião, meu primeiro pensamento foi
“...um dia chego aqui de moto...”.
Pois este sonho se concretizou em
2003 (relato no Rabo Duro 1 e 2).
Pois bem, quando estava em Porto
Velho, o que ninguém sabia era que
alimentei um outro sonho, o de
cruzar a tal BR-230 em toda a sua
extensão, desde Humaitá, já no
estado do Amazonas, até Marabá (PA),
atravessando o coração da floresta e
percorrendo o que o pessoal da
revista duas rodas classifica como a
“pior estrada do Brasil”.
Em três dias rodei o tempo inteiro,
fazendo uma média de 1000 Km por
dia, até a cidade de Porto Velho
(RO). No quarto dia dei uma voltinha
e atravessei a balsa que cruza o Rio
Madeira. Mais 200 Km e chego na
cidade de Humaitá (AM), local
escolhido para o início de minha
aventura. Resolvi descansar o resto
daquele dia, me alimentar bem,
preparar a moto e me preparar,
física e psicologicamente, para o
que pudesse vir a partir do dia
seguinte. Aproveitei para dar umas
voltas, conhecer um pouco a cidade
e comprar alguns artesanatos locais.
Acabei comendo Pirarucu, o bacalhau
da Amazônia, e me deliciei pra
valer.
Não consegui dormir direito. O sono,
inquieto, não me permitia relaxar.
Uma mistura de ansiedade, medo e
curiosidade fizeram com que as horas
demorassem a passar e o sono
custasse a chegar.
Mal o dia amanheceu segui em
direção à balsa que cruzaria,
novamente, o Rio Madeira. Agora sim,
a partir desse momento estarei
cruzando uma das estradas mais
“dinâmicas” do planeta. Época de
seca é uma coisa, se chove é outra.
Você pode ir e encontrá-la de um
jeito e, no dia seguinte encontrá-la
totalmente diferente. Mesmo assim
cruzar a maior floresta do mundo
encanta meu coração. O dia estava
nublado, o que é comum nas matas, e
mal desci da primeira balsa (as 7:00 hs) encontrei uma cena assustadora.
Um ônibus atolado, em um verdadeiro
mar de lama de uns 80 a 100 metros
de extensão, com uma das rodas
encostada em uma árvore na lateral
da pista, escondida sob o lamaçal.
Um nó se formou em minha garganta e
senti uma sensação de medo que
poucas vezes senti em minha vida.
Pensei: “E agora? E se encontro uma
situação dessas daqui a 30 Km, como
faço para passar?”. Confesso que
neste momento cheguei até a duvidar
de minha viagem, mas tive ajuda para
atravessar o atoleiro e segui rumo
ao desconhecido. Continuei seguindo
mais 25 Km com um rapaz em outra
moto. Quando nos despedimos eu
disse: “É amigo, agora é só eu e
Deus”. Neste momento ele me falou o
que mais eu precisava escutar: “E
Deus é um cara bacana. Você está bem
guiado”. Acreditem, a partir dessa
frase tranqüilizei meu coração.
Neste dia rodei até Santo Antonio do
Matupi, cidade conhecida como Km
180. No dia seguinte parti cedo.
Os trechos na Amazônia são longos e
é preciso planejar o quanto se
pretende rodar a cada dia para não
ter que pilotar a noite ou, o que é
pior, ficar em plena floresta com
algum problema. Não há sinal para
telefone celular, não passa ninguém
e a gente chega a pilotar até seis
horas sem encontrar gente. Rumei a
Apuí, distante mais 220 Km e
Jacareacanga (PA) mais 277 Km. Neste
trecho peguei alguns atoleiros,
principalmente um de uns 1000
metros, porém de lama preta e pouco
escorregadia (apesar de grudenta), o
que me permitiu atravessar sem
maiores dificuldades. Por outro
lado, a presença de famílias
inteiras de macacos atravessando,
calmamente, a pista, trazem um
encantamento especial ao nosso
coração. Outro atoleiro, porém, me
fez cair, e o que é pior, fiquei com
a perna presa embaixo da moto.
Ferrou!!!
Olhei para trás, nada. Para frente,
nada. O jeito foi cavar e tirar a
perna lá de baixo. A noite, quando
telefonei pra namorada, contei a ela
o que havia acontecido. Algum
andante escutou a história da
seguinte maneira: “...fiquei preso,
mas cavei um buraco e consegui sair.
Agora estou aqui...”. Pronto, quando
eu jantava, dois policiais chegaram
e pediram para ver meus documentos.
Acabei ficando duas horas esperando
na delegacia. Pudera, cidade em meio
de floresta, longe de tudo, há
fugitivos e gente procurada e,
assim, os moradores ficam atentos.
Tudo resolvido, pude partir.
A despeito do que escrevi em meu
livro “Uma Aventura às Três
Américas”, a percepção da grandeza
da natureza realmente muda a gente
por dentro. Percebemos que Ela, e
somente Ela é quem pode nos permitir
passar.
Em Rurópolis peguei a BR-163
(Cuiabá-Santarém), e enfrentei o dia
mais duro da viagem. Foram 300 Km de
uma buraqueira infernal e parei mais
de sete vezes para descansar. Sempre
com a Floresta do Tapajós à minha
esquerda, o trecho final de 30 Km em
lama (havia chovido) judiou pelo
tanto que escorregava, tornando a
pilotagem um martírio. Cheguei em
Alter do Chão e resolvi ficar o
resto do final de semana ali,
passeando de barco e comendo peixe
para me recompor. É interessante
perceber que na Região Norte as
águas sobem ou descem (em época de
cheia ou seca, respectivamente)
muito. Chega a ter desnível de água
de até 6 metros. E isso falando de
rios com mais de 10 Km de uma borda
a outra. É muita água. Às margens do
Rio Tapajós, Alter do Chão é um
lugar fascinante. As ilhas aparecem
na época da seca e as pessoas
aproveitam para equipar seus
quiosques. Quando começa a encher o
rio, todos se retiram e só aparecem
os telhados de palha. Passeando de
barco entre a floresta, que logo
estará seca, pode-se presenciar
cenários que só vemos em quadros,
como obras de arte que são. O banho
no rio foi revigorante.
Segunda, cedinho, segui para
Belterra, cidade fundada por Henry
Ford na época da borracha e, de lá,
novamente Transamazônica, agora rumo
a Uruará. No caminho outro atoleiro,
com um ônibus dentro, e várias
pessoas tentando tirá-lo dali.
Ajudei e, depois, me ajudaram a
cruzar o obstáculo.
Durante a travessia do Rio Xingu
caiu o maior toró. O resultado foi
mais uns 15 Km de lama escorregadia.
A partir daí começou a poeira. Em
virtude da seca, forma-se uma
espécie de talco encobrindo toda a
rodovia. Como não venta, ao passar
um carro e levantar a poeira, aquela
nuvem fica dificultando a
visibilidade até uma hora depois da
passagem do veículo. A garganta seca
e o nariz entope...
Finalmente cheguei ao asfalto e o
que me separava daqueles que eu amo
era “apenas” uns 3000 Km de retorno.
Na saída da estrada não pavimentada
parei a moto para uma “prosa” com o
dono de uma vendinha a beira da
estrada. Ele me disse: “...moço,
daqui pra frente é Brasil. Pra trás,
de onde o senhor vem vindo, é outro
mundo...”. É verdade, nem dá para
acreditar que há tanta diferença
dentro do mesmo país. Costumo dizer
que há muitos “brasis” no Brasil. A
gente vai andando e conhecendo gente
simples que fará tudo para te ajudar
em caso de necessidade. Em outros
momentos você se depara com índios e
sabe que está cruzando seu
território, passando por aldeias e
reservas. Em outros é melhor deixar
os olhos abertos, bem abertos...
Assim é a vida não é mesmo?
Deixando a floresta percebi que
acabei deixando parte do meu coração
“plantado” ali para, quem sabe, um
dia voltar. Minha recompensa está
nas fotos que tirei, nos choros que
chorei, nas noites que mal dormi,
nas histórias que tenho para contar.
Pensando bem, que mais pode alguém
querer na vida do que ter mais um
sonho realizado nesta maravilhosa
aventura do existir?
Alguns quilômetros mais e a festa em
minha casa fechou mais uma viagem.
Afinal os verdadeiros tesouros da
vida estão bem próximos de nós, na
família, no lar, nos corações de
quem nos ama e, mesmo de longe,
rezam para que tudo dê certo. Também
em nosso interior que, após mais um
desafio, sente, que viver realmente
vale a pena.
Rodovia
Transamazônica – missão cumprida!
| |